6. MEDICINA E BEM-ESTAR 16.1.13

UMA ASSOCIAO DEVASTADORA

Pesquisadores brasileiros descobrem por que o mal de Alzheimer e a depresso so duas doenas que esto conectadas. A concluso do trabalho abre novas perspectivas de diagnstico e de tratamento para ambas as enfermidades
Michel Alecrim

Uma pesquisa brasileira acaba de dar uma contribuio decisiva para o melhor entendimento de dois dos principais flagelos da sade mental: a depresso e o mal de Alzheimer. A depresso, que j atinge 350 milhes de pessoas,  considerada o mal do sculo XXI pela Organizao Mundial da Sade. O mal de Alzheimer atualmente aflige 36 milhes, mas espera-se que esse nmero dobre at 2030. Agora, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) encontraram um mecanismo bioqumico que liga os dois distrbios. Em um trabalho feito em animais, eles verificaram que o acmulo de uma neurotoxina no crebro leva ao desenvolvimento de sintomas de ambas as doenas. Tratadas com antidepressivos, as cobaias apresentaram melhora com relao aos dois quadros. O resultado do estudo, assinado pela equipe do Instituto de Bioqumica Mdica da instituio fluminense, foi divulgado na ltima edio da Molecular Psychiatry, publicao do grupo da prestigiada revista cientfica inglesa Nature.

H algum tempo os cientistas observavam uma associao entre as duas enfermidades. O mrito dos pesquisadores brasileiros foi desvendar exatamente o que as une. O elo  feito por um composto chamado oligmero de abeta. Trata-se de uma substncia txica que, em pacientes com Alzheimer, apresenta-se em maior concentrao. Como se dissolve com facilidade no lquido cerebral, vai aos poucos degenerando a capacidade de memorizao de informaes  a perda gradual da memria  um dos principais sintomas da doena.

O grupo da UFRJ descobriu que essas mesmas neurotoxinas tambm provocam prejuzos no sistema cerebral que regula o humor. Ainda no se sabe claramente o mecanismo pelo qual isso ocorre. Acredita-se que a substncia interfira na fabricao da serotonina (composto cujo desequilbrio est associado  depresso) ou que desencadeie um processo inflamatrio que resulte na enfermidade.
 
Depois de constatarem o papel da substncia, os cientistas resolveram verificar se, tratando a depresso com um antidepressivo, seria possvel tambm obter melhora nos sintomas de Alzheimer. As cobaias foram ento medicadas com fluoxetina, princpio ativo de muitos antidepressivos, entre eles o Prozac. Observamos que o remdio combatia a depresso e, ao mesmo tempo, tinha um efeito preventivo contra os danos do Alzheimer, contou o pesquisador carioca Jos Henrique Alves da Cunha, cuja tese de doutorado  a pesquisa.

A informao obtida pelos brasileiros abre novas perspectivas no tratamento das duas enfermidades. Vislumbra-se uma possibilidade de diagnstico e tratamento mais eficazes, avaliou Ivan Okamoto, membro da Academia Brasileira de Neurologia. Uma das mudanas que ela deve promover, por exemplo,  a necessidade de acompanhamento ainda mais cuidadoso de pessoas diagnosticadas com Alzheimer ou com depresso, para evitar que elas acabem desenvolvendo as duas doenas. Outra  que a medio dos nveis da neurotoxina pode acabar servindo como um indicador da presena ou no das doenas.

TRABALHO - Os cientistas Cunha ( esq.) e Ferreira querem aprofundar o estudo
 
Os cientistas da UFRJ esperam agora que as pesquisas se aprofundem. Os resultados realmente estimulam um prolongamento do estudo, j com seres humanos, afirma Alves da Cunha. O coordenador do experimento, Srgio Ferreira, diz que seu grupo est disposto a participar do esforo mundial para interromper o processo do Alzheimer antes que a enfermidade provoque danos irreversveis  memria. Infelizmente, s vezes o tratamento comea tarde demais. Mesmo que no consigamos fazer uma pesquisa com humanos no Brasil, por motivos financeiros e burocrticos, acredito que no ser difcil firmar uma parceria com uma instituio estrangeira, dado o interesse mundial pelo tema, ressalta o pesquisador.

